Síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP): entenda por que a SOP mudou de nome

Com a nova nomenclatura, condição passa a refletir impactos hormonais e metabólicos da doença que vão além dos ovários

Após 14 anos de pesquisa e 22 mil respostas a questionários aplicados a pacientes, a síndrome dos ovários policísticos (SOP) foi oficialmente renomeada para síndrome ovariana metabólica poliendócrina  ou SOMP (também chamada de PMOS, do inglês polyendocrine metabolic ovarian syndrome). A mudança de nome foi publicada na revista científica The Lancet e anunciada no Congresso Europeu de Endocrinologia, em Praga, na República Tcheca, no dia 12 de maio.

Entenda como essa mudança impacta a vida de mulheres com SOP no texto a seguir.

O que é a síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP)?

A síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) é o novo nome para a condição anteriormente conhecida como síndrome dos ovários policísticos, que afeta mais de 170 milhões de mulheres em todo o mundo.

Trata-se de uma condição hormonal e metabólica caracterizada por alterações na produção de hormônios, irregularidade menstrual, dificuldade de ovulação e sinais de excesso de andrógenos, como acne, aumento de pelos e queda capilar.

Além disso, a síndrome também está associada à resistência insulínica, ao ganho de peso, ao aumento do risco cardiovascular e à maior predisposição ao diabetes tipo 2. Nesse cenário é que foi definida a necessidade de mudança de nomenclatura.

Por que a síndrome dos ovários policísticos mudou de nome?

A síndrome ovariana metabólica poliendócrina, anteriormente conhecida como síndrome dos ovários policísticos (SOMP), recebeu uma nova nomenclatura porque especialistas entenderam que o nome antigo não representava corretamente a complexidade da condição.

Por muitos anos, o termo “ovários policísticos” levou à ideia de que a doença estaria relacionada apenas à presença de cistos nos ovários. No entanto, estudos mostram que muitas mulheres com síndrome ovariana metabólica poliendócrina nem sequer apresentam cistos ovarianos anormais.

Além disso, a síndrome ovariana metabólica poliendócrina envolve alterações hormonais, metabólicas e inflamatórias que vão além dos ovários, podendo impactar a ovulação, a fertilidade, a resistência à insulina, o peso corporal e o risco cardiovascular.

Por isso, a nova nomenclatura busca refletir de forma mais precisa o caráter hormonal e metabólico da síndrome ovariana metabólica poliendócrina, enquanto o termo SOMP ainda deve continuar sendo utilizado durante o período de transição.

O que havia de errado no termo “ovários policísticos”?

Por muito tempo, principal problema do termo “ovários policísticos” era transmitir a ideia de que a síndrome ovariana metabólica poliendócrina se resumia à presença de cistos nos ovários. Segundo especialistas, essa interpretação acabou sendo enganosa e contribuiu para o diagnóstico tardio e para o atendimento médico inadequado. Além disso, os chamados “cistos” observados na condição geralmente são folículos com crescimento interrompido, e não cistos verdadeiros.

Com isso, o antigo termo SOMP acabava colocando foco excessivo nos ovários e deixando em segundo plano alterações hormonais, metabólicas e inflamatórias importantes da síndrome.

SOP não é causada por cistos nos ovários

Pesquisas recentes mostram que mulheres com SOP não apresentam uma taxa maior de cistos ovarianos anormais do que mulheres sem a condição. A denominação antiga era errônea porque focava apenas nos chamados cistos, que na verdade não são cistos, mas folículos com crescimento interrompido. Por isso, o nome anterior acabava contribuindo para interpretações equivocadas tanto entre pacientes quanto entre profissionais de saúde.

Qual a diferença entre folículos e cistos ovarianos?

Folículos ovarianos são estruturas presentes que armazenam os óvulos em desenvolvimento. Na síndrome ovariana metabólica poliendócrina, vários folículos permanecem sem amadurecer completamente, o que altera o padrão ovariano observado no ultrassom.

Já os cistos ovarianos verdadeiros são formações geralmente maiores, preenchidas por líquido ou outro conteúdo, podendo surgir por diferentes causas ginecológicas.

O que o novo nome SOMP significa?

O novo nome SOMP, sigla para síndrome ovariana metabólica poliendócrina, foi criado para mostrar que a condição vai muito além dos ovários. “Poliendócrina” indica o envolvimento de vários hormônios, “metabólica” destaca alterações como resistência à insulina e maior risco de diabetes, enquanto “ovariana” permanece por causa dos impactos da síndrome sobre a ovulação e a fertilidade.

Por que a PMOS é considerada uma síndrome metabólica e hormonal?

A síndrome ovariana metabólica poliendócrina tem causas genéticas, endócrinas e metabólicas, com o comprometimento de vários hormônios, como insulina, androgênios, hormônio luteinizante (LH) e hormônio antimülleriano (AMH).

Ao mesmo tempo, muitas pacientes apresentam resistência à insulina, condição em que o organismo tem dificuldade para utilizar adequadamente a glicose. Isso favorece ganho de peso, aumento da gordura abdominal e maior risco de diabetes tipo 2.

Também há maior predisposição a hipertensão arterial, colesterol elevado e doenças cardiovasculares. Por isso, atualmente a síndrome é entendida como uma condição metabólica e endócrina, recebendo o nome de síndrome ovariana metabólica poliendócrina.

O que muda para as pacientes com a nova nomenclatura da SOMP?

Para as pacientes, a principal mudança é que a síndrome ovariana metabólica poliendócrina passa a ser compreendida de forma mais ampla, e não apenas como uma condição ligada aos ovários ou à fertilidade. O novo nome reflete de forma mais precisa que a SOMP também pode estar associada a alterações hormonais, metabólicas e impactos na saúde mental ao longo da vida. Na prática, isso pode contribuir para diagnósticos mais precisos, acompanhamento mais completo e tratamentos mais adequados para as mulheres com a condição.

Como foi decidido o novo nome da SOP?

Artigos acadêmicos discutem a mudança do nome da condição desde 1995, e em 2012, um fórum sobre SOP, organizado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, recomendou essa mudança.

A professora Helena Teede, diretora do Centro de Pesquisa e Implementação em Saúde da Universidade Monash, na Austrália, liderou o processo de mudança de nome após décadas pesquisando a doença e testemunhando os impactos nas pacientes. Mais de 50 organizações de pacientes e profissionais, incluindo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), participaram do processo de desenvolvimento do novo nome.

O termo SOP ainda continuará sendo usado?

De acordo com o consenso publicado no The Lancet, a implementação do novo nome será gradual e deve ocorrer ao longo dos próximos três anos, até ser incorporada oficialmente às diretrizes internacionais previstas para 2028. Portanto, o termo SOP ainda deverá ser utilizado por bastante tempo, especialmente porque é amplamente conhecido entre médicos, pacientes e instituições de saúde.

 

Fontes

The Lancet

Cleveland Clinic

Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

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