Epigenética e fertilidade

A forma como os genes se manifestam pode interferir na capacidade reprodutiva e na qualidade dos gametas

 

Nas últimas décadas, diversos estudos têm indicado que a manifestação genética vai muito além de simplesmente ter os genes herdados dos pais e é influenciada por diversos fatores que interferem diretamente em sua ativação ou silenciamento, o que resulta em características específicas. O entendimento sobre esse tipo de influência é chamado de epigenética.

Quando falamos, mais especificamente, na relação entre epigenética e fertilidade, nos referimos aos mecanismos que regulam a manifestação dos genes ligados à função reprodutiva, à qualidade dos gametas e ao desenvolvimento embrionário.

Esses mecanismos estão relacionados a importantes alterações metabólicas que, por sua vez, podem estar ligadas a diversos fatores, como alimentação, estilo de vida, idade e outros influenciadores ambientais.

Assim, podemos dizer que entender a conexão entre epigenética e fertilidade é fundamental para mulheres e casais que estão planejando a gravidez ou que buscam realizar tratamentos de reprodução humana assistida.

O que é epigenética?

A epigenética é o ramo da Biologia que estuda as modificações químicas que regulam a expressão dos genes sem alterar a sequência do DNA. Ou seja, é como se houvesse marcadores que determinassem quais genes vão se expressar, em que momento e com qual intensidade.

Essas modificações ocorrem principalmente por meio de processos como a metilação do DNA — que adiciona grupos específicos de moléculas orgânicas aos genes, sem alterá-los — e alterações nas caudas de proteínas chamadas histonas, responsáveis por organizar o material genético dentro das células.

Esses mecanismos são naturais e essenciais ao desenvolvimento humano. No entanto, são extremamente sensíveis aos estímulos externos, como a alimentação, o estilo de vida, a idade, alterações na saúde mental e diversos outros fatores ambientais.

No caso da relação entre epigenética e fertilidade, a influência desses fatores se dá principalmente durante a formação dos gametas e a preparação do ambiente uterino para a gravidez. Dependendo da forma como a reorganização ocorre, alterações significativas podem impactar a qualidade embrionária, a implantação e a evolução da gestação.

Diferença entre genética e epigenética

Quando falamos em genética, nos referimos à sequência do DNA herdada dos pais, ou seja, aos genes propriamente ditos que compõem o núcleo de cada célula. Já a epigenética diz respeito à forma como esses genes são ativados ou silenciados ao longo da vida. É como se a genética definisse o código biológico e a epigenética a sua leitura.

Isso quer dizer que uma pessoa pode não apresentar alterações genéticas estruturais, mas ainda assim ter modificações epigenéticas que impactam funções celulares específicas de diversas maneiras diferentes, incluindo as que envolvem a fertilidade e a função reprodutiva.

Como fatores antes da gestação podem ligar ou desligar genes ligados à fertilidade?

Tanto no organismo materno quanto no paterno, diversos fatores anteriores à concepção podem interferir na expressão genética relacionada à reprodução. Esses fatores impactam o metabolismo celular que, por sua vez, interfere nos processos de metilação e alteração das proteínas do DNA dos gametas em formação.

Entre eles, podemos mencionar:

  • Obesidade ou baixo peso;
  • Alimentação pobre em nutrientes essenciais;
  • Exposição a poluentes, elementos químicos e outras substâncias que alteram a produção hormonal;
  • Estresse emocional prolongado ou outros problemas de origem psicológica;
  • Idade materna e paterna avançada.

Isoladamente, esses fatores não determinam que haverá uma alteração realmente importante na qualidade dos gametas ou na receptividade uterina, mas indicam que essa possibilidade é maior.

Por isso, nas clínicas especializadas em reprodução humana, a abordagem preventiva baseada em epigenética e fertilidade inclui orientação nutricional, avaliação metabólica e acompanhamento clínico individualizado antes mesmo do início efetivo de um tratamento.

Qual é o papel da epigenética na reprodução assistida?

Na reprodução humana assistida, o entendimento da relação entre epigenética e fertilidade tem contribuído para aprimorar protocolos laboratoriais e de tratamento.

Durante procedimentos como a fertilização in vitro (FIV), ocorre manipulação controlada dos gametas e do embrião em ambiente laboratorial, o que exige um rigor técnico da equipe para preservar a integridade celular e para que não haja grandes influências ambientais sobre sua expressão gênica.

Além disso, os primeiros dias de desenvolvimento embrionário costumam ser marcados por intensa reprogramação epigenética, quando são estabelecidos os padrões mais fundamentais de expressão gênica do embrião. Por isso, condições como temperatura, cultura embrionária e qualidade dos gametas são cuidadosamente monitoradas.

Também, como mencionamos anteriormente, a relação entre epigenética e fertilidade já começa a ser levada em consideração antes da coleta dos gametas, com orientações sobre mudanças de estilo de vida e outras ações que podem impactar positivamente a qualidade dos gametas em formação.

Há riscos epigenéticos na FIV?

Uma dúvida muito comum entre pacientes é se a fertilização in vitro pode causar alterações epigenéticas no embrião. O que se entende, atualmente, é que os procedimentos são considerados seguros, com milhões de crianças nascidas por FIV tendo desenvolvimento saudável.

No entanto, todo processo biológico é complexo e, por isso, a relação entre epigenética e fertilidade no contexto da reprodução assistida precisa ser pensada como uma possibilidade real, não necessariamente pelo fato de ser um tratamento desse tipo, mas porque os genes estão sempre suscetíveis a esse tipo de alteração, ainda que de forma muito sutil.

A infertilidade em si, especialmente quando associada a fatores masculinos ou femininos específicos, também pode estar relacionada a alterações epigenéticas pré-existentes. Ou seja, há situações em que o risco está relacionado às condições prévias que levaram à indicação do tratamento.

Outro fator prévio que pode evidenciar a relação entre epigenética e fertilidade nos casos de tratamentos de reprodução assistida é a preparação natural do útero, que também pode ser influenciada por reorganizações epigenéticas no organismo materno e impactar processos como a receptividade do endométrio ao embrião e o desenvolvimento da gestação.

Além disso, é importante mencionar que o acompanhamento em centros especializados, com protocolos rigorosos e uma equipe especializada e experiente, é fundamental para minimizar qualquer risco.

Para saber mais sobre a relação entre epigenética e fertilidade e como ela pode se dar no seu caso, entre em contato com a Mater Prime.

 

Fontes:

Mater Prime

Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva

Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida

Organização Mundial da Saúde

Blog

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